Durante a travessia pelo Tennesse, a mais desoladora visão começou com uma pick up caindo aos pedaços que, enquanto abastecíamos, estacionou junto a um destes ermos postos de gasolina. Quem dirigia o veículo era uma menina com alguma beleza preservada no seus olhos claros e no rosto de traços ainda delicados. Ela vestia um jeans puído, um t shirt brsanca sem estampa, e tinha a pele coberta de enormes tatuagens: a já clássica imagem da menina-problemática-sensível-nascida-no-seio-de-uma-família-white-trsash-que-namora-algum-troglodita-que-está-em-liberdade-condicional, clichê que apenas se confirmou quando a primeira atitude da garota após descer do carro foi acender um cigarro, tragar e, após exalar a fumaça, olhar ao redor, os olhos de um azul áspero quebrados pela claridade do sol refletido pela estrada vazia. Em todos os seus gestos, eu percebia (ou obrigava-me a perceber) uma mistura de dureza e desolação, como se ela soubesse (ou eu soubesse por ela) que a vida nunca mais seria do que raiva e tédio alternados por hiatos de algum sentimento mais límpido, talvez ternura, talvez amor, talvez algo calmo e doloroso percebido durante a audição de alguma canção de amor ou durante a morte de algum animal de estimação ou coisa parecida. Depois, confirmando o que me parecia tão tangível e inevitável e no entanto tão esvaziado de realismo como qualquer visão que se aproxima do ideal de qualquer coisa, vi sair da pick up uma menina de seis ou sete anos, cabelos loiros, olhos de um azul ainda cristalino, o tipo de criança que poderia estar em qualquer peça publicitária old school ou em qualquer releitura de peça publicitária destinada a destruir o american way of life.
Foi no final deste mesmo dia que chegamos a Nashville, tida como a capital da música country dos Estados Unidos. No albergue em que pretendíamos nos hospedar, não havia vagas, de modo que nos foi recomendado que tentássemos hospedagem numa guest house a poucas quadras dali. Para lá seguimos, alheios ao fato de que ingressávamos no campus da metodista e centenária Vanderbilt University. A primeira reação foi de espanto: ainda não sabíamos onde estávamos; a arquitetura e o silêncio ao redor eram indicativos de que havíamos acabado de ingressar em algum complexo religioso, e a hospitalidade com que fomos recebidos e o baixo preço cobrado pelos hospedagem incutia, em todos nós, a certeza de que no meio da noite seríamos surpreendidos por algum pastor apocalíptico.
De todo modo, a falta de opções foi decisiva para que ficássemos por ali mesmo. Uma hora depois de instalados, já saíamos para conhecer a noite da capital caipira da América, pois sim, se alguém quisesse salvar as nossas almas o mínimo que podíamos fazer era perdê-las em alguma noite de sábado. Já na Broadway, avenida de Nashville que reúne todos os bares da cidade, as músicas saídas de cada estabelecimento misturavam-se, formando uma pesada massa sonora. Nas calçadas repletas de gente, rapazes idiotas e bêbados urravam, enquanto grupos de meninas seguiam risonhas e frenéticas durante despedidas de solteira, sendo que todas as noivas nunca pareciam ter mais do que vinte anos de idade, o que me trouxe aquela sensação de vida tacanha que se repete geração após geração. Ainda vale ressaltar que a América é um lugar estranho quando o assunto é diversão: os rapazes beberrões e idiotas sequer tentavam uma interação mais objetiva com as meninas, enquanto as garotas nas despedidas de solteira contentavam-se em ir de bar em bar, onde dançavam pudicamente com estranhos, riam, falavam asneiras, e então seguiam para o próximo bar.
A nossa noite, devo dizer, não foi muito mais inconsequente do que os comportamentos acima relatados. Três bares, duas cervejas tomadas em cada um desses bares, e depois o retorno. Pelo menos, se algum pastor tentasse salvar a nossa alma durante a madrugada, nos encontraria bêbados e não ficaria tão decepcionado com a nossa inaptidão para o pecado. Mas sequer isso aconteceu: a madrugada transcorreu na mais perfeita calma e eu dormi como um tolo ungido ou esquecido pela glória divina. A manhã de domingo começou ensolarada, e uma breve caminhada pela vizinhança em busca de algum lugar para o café da manhã trouxe algumas respostas: enfim percebemos que perambulávamos por um campus universitário, enfim percebemos que havíamos nos hospedado em algum alojamento estabelecido com base nos insondáveis princípios da fraternidade luterana. Na busca pelo café, primeiro ingressamos num lugar que parecia uma cafeteria, mas que se revelou uma galeria de arte. Telas à la Pollock eram vistas na parede e não havia sequer uma viva alma nos estúdios. De repente, um suave tilintar de sininhos indicou que uma porta era aberta e surgiu uma garota de loiros cabelos curtos, olhos azuis e pacíficos, de gestos, postura e semblante tão lapidados quanto os gestos e postura e semblantes percebidos nas melhores filhas do Brooklyn. Ela perguntou o que queríamos. Falamos sobre a nossa intenção de ter um café das manhã, e então ela praticamente implorou para que esperássemos ela passar o café e abrir a cafeteria. Mas o tempo urgia e não podíamos esperar, pois sim, o tempo sempre urge diante da beleza mais inesperada e mais inata.
Desta galeria de arte-cafeteria seguimos para um Starbucks situada a poucas quadras dali. Desnecessária a descrição do lugar, afinal de contas, a descrição de uma Starbucks é a descrição de qualquer Starbucks. O que percebi de diferente foi a estranha movimentação do lugar para uma manhã de domingo. Todas as mesas e sofás estavam ocupados por jovens, a maiorias vestidos com agasalhos da Vanderbilt University, e quase todos diante de cadernos com as mais variadas anotações ou computadores portáteis, todos apressados para a conclusão de algum trabalho. Perto de onde conseguimos lugar, tomava café uma garota que não aparentava ter mais do que 20 anos, cabelos curtos com uma madeixa que lhe caía sobre as faces e que ela, de tempos em tempos, pousava atrás da orelha, óculos que apenas ressaltavam os delicados traços do seu rosto, olhos alegres e acesos, tão tangível e no entanto tão diferente de qualquer garota que eu julgava encontrar na capital do Tennesse, e de um realismo tão falho e por isso tão perturbador quanto o da garota encontrada no posto de combustível. Lá fora o domingo seguia calmo, alternando luz cristalina e sombras projetadas pelas árvores de copas frondosas, tudo isso para dizer: Tennesse, sábado e domingo, 10 e 11 de setembro, um lugar onde eu nunca havia estado antes e para o qual eu não voltaria a retornar.